AULA01. O conhecimento da arquitectura


Na primeira aula da disciplina de teoria de arquitectura, para compreender o que é a arquitectura, foram apresentadas algumas definições de arquitectura por parte de vários arquitectos e em seguida criticadas, criando comparações entre as várias definições por parte de diferentes arquitectos, como por exemplo (tradução):

"Primeiramente de tudo, eu devo dizer que a arquitectura não existe. Existe uma obra de arquitectura. Uma obra de arquitectura é uma oferta à arquitectura na esperança de que esta obra se possa tornar uma parte do tesouro da arquitectura. Nem todos os edifícios são arquitectura (...) O programa que se recebe e a tradução arquitectónica devem vir do espírito do homem e não das instruções materiais".
Kahn, Louis I. (conferência no politécnico de Milão, 1967, em ZODIAC, 17)

Para Kahn, a maior parte da arquitectura não faz parte da arquitectura como arte (ou seja, os edifícios normais), pois para a arquitectura ser vista como obra de arte é necessário que provoque emoções.

“A casa deve satisfazer a todos, ao contrário da obra de arte que não tem que agradar a ninguém. A obra de uma arte é um assunto privado do artista. A casa não é. A obra de arte localiza-se no mundo sem que exista exigência alguma que a obrigue a nascer. A casa cobre uma exigência. A obra de arte é revolucionária, a casa é conservadora. (…) Será que a casa não tem nada a ver com a arte e que a arquitectura não deveria estar entre as artes? Assim é. Só uma parte, muito pequena, da arquitectura corresponde ao domínio da arte: o monumento funerário e o comemorativo. Todos os outros, tudo o que tem uma finalidade é o necessário para ser excluído do império da arte”.
Adolf Loos (“Arquitectura”, 1910, em Trotzdem, 1900-1930, 1931)


Loos, faz uma comparação entre a obra de arte e a arquitectura afirmando que a arquitectura não é arte, apenas é um componente que serve para resolver uma série de problemas sociais do ser humano. Apenas fazendo parte do “império da arte” num pequeno momento, para isso terá que ser monumental e provocar sensações aos espectadores. Se a arquitectura tiver qualquer finalidade, já não será vista como arte.


"A arquitectura é a arte para levantar e de decorar os edifícios construídos pelo homem, qualquer que seja o seu destino, de modo que o seu aspecto contribua para a saúde, a força e o prazer de espírito".
John Ruskin (The Seven Lamps of Architecture, 1849)

Ao contrário de Loos, Ruskin afirma que a arquitectura já é arte, independentemente do seu destino ou finalidade, estabelecendo condições, onde o aspecto final da obra terá de comunicar com uma série de emoções, como a “saúde, a força e o prazer de espírito”.

“O que é a arquitectura? Deveria ser definida, como Vitruvio, como a arte de construir? Não. Essa definição envolve um erro terrível. Vitruvio confunde o afecto com a causa. A concepção da obra precede a sua execução. Os nossos antepassados não construíram as suas cabanas depois de terem concebido a sua imagem. Essa criação que constitui a arquitectura é uma produção do espírito por meio da qual podemos definir a arte de produzir e de levar à perfeição qualquer edifício. A arte de construir não é mais que uma arte secundária que me parece conveniente definir como a parte científica da arquitectura” (da introdução).
Étienne-Louis Boullée (Architecture. Essai sur l’art, 1780)

“…o arquitecto será aquele que com um determinado método e um procedimento determinados e dignos de admiração tinha estudado a maneira de projectar na teoria e realizar também todo o trabalho na prática qualquer obra que, a partir do deslocamento dos pesos e da união e da montagem dos corpos, se adapte, de uma forma bela, às necessidades mais próprias dos seres humanos”.
Leon Battista Alberti (De Re Aedificatoria, 1452)

Para Boullée e para Alberti, segundo o seu tratado da arquitectura no renascimento, afirmam que, diferente de VItruvio, a arquitectura necessita de um método prévio antes do próprio resultado final.

"A arquitectura é a arte de construir. Compõe-se de duas partes, a teoria e a prática. A teoria compreende a arte propriamente dita, as regras sugeridas pelo gosto, derivadas da tradição, e a ciência, que se baseia sobre fórmulas constantes e absolutas. A prática é a aplicação da teoria de acordo com as necessidades; é a prática a que une a arte e a ciência à natureza dos materiais, ao clima, aos costumes de uma época, às necessidades de um período".
E. E. Viollet-Le-Duc (Dictionnaire raisonnée …, 1854-1868)

"A arquitectura é uma ciência intelectual e prática dirigida a estabelecer racionalmente o bom uso e as proporções dos artefactos e a conhecer com a experiência da natureza dos materiais que os compõem".
Carlo Lodoli (A. Memmo: Elementi dell’ Architettura Lodoliana, 1786)

"A Arquitectura é uma ciência adornada de muitas outras disciplinas e conhecimentos, pelo julgamento da qual passam as obras das outras artes. É prática e teórica. A prática é uma contínua e expedita frequentação de uso, executada com as mãos, sobre a matéria correspondente ao que se deseja formar. A teórica é a que sabe explicar e demonstrar com a subtileza e leis de proporção, as obras executadas" (del Lib. I, cap. I). "Estes edifícios devem construir-se com atenção à firmeza, comodidade e beleza" (del Lib. I, cap. III).
Marco Vitruvio (De Architectura, I a.C.)

De acordo com as definições, tal como Vitruvio, muitos dos arquitectos dividem a arquitectura em duas partes, uma prática e outra teórica, onde a teórica é a explicação daquilo que foi construído. Afirmando que os três pilares para mais tarde analisar projectos para uma boa arquitectura são a firmeza (firmitas) que consiste em questões práticas e técnicas da construção e na eleição do lugar, a utilidade (utilitas) com a finalidade das construções de serem vividas e habitadas e a beleza (venustas) que consiste na estética e na beleza arquitectónica.

AULA02. O início da ideia na arquitectura


Para melhor se entender a origem da ideia na arquitectura recorreu-se à teoria das ideias de Platão. Para Platão existem dois mundos diferentes, arkhe que era um mundo virtual, das ideias, dos sonhos, da ideia artística, da criação; e thelos que seria um mundo real, material, das formas, da formalização material.
Existem quatro níveis na ideia arquitectónica, que são:

1. Não há fórmulas que expliquem as ideias, logo é difícil explicar o que é a arquitectura;
2. É preciso ficar com a ideia durante muito tempo;
3. A ideia é a origem da forma;
4. A ideia tem vida própria, pois o arquitecto tem de a saber controlar.

A partir destes tópicos podemos concluir que a forma é um elemento que tem alguma materialidade (mundo da realidade); a ideia está na origem da forma arquitectónica, isto é, uma ideia apenas pode dar solução a muitos problemas (de acordo com determinados problemas, surge uma a ideia que vai dar lugar ao resultado como solução dos mesmos), pois um projecto tem uma ideia prévia, que vai obter soluções.
Por exemplo, a ideia de centralidade surge de diferentes programas/problemas e é materializada de diferentes formas, mas sendo a ideia central a mesma.

Alguns exemplos que demonstram a ideia de centralidade:

Panteon, Roma (S. II d.C.)
Adriano

Santa Maria de Fiori, Firenze 1418
Brunelleschi

Cenotafio de Newton 1784
Boullé Etienne-Louis

Befreiunshalle (Sala das Liberdades), 1843
Klenze, Leo von

Biblioteca de Estocolmo, 1920-28
Asplund, Enk Gunnar

Museu Guggenheim, New York 1959
Wright, Frank Lloyd

Lumiere Park Café 1999
Sejima, Kazuyo

AULA03. Tetraedro arquitectónico


Era o método para compreender qualquer projecto, onde qualquer edifício deveria obedecer a estes três elementos:
“A arquitectura está além dos factos utilitários. A arquitectura é um facto plástico. (…) A arquitectura é o jogo sábio, correcto, magnífico dos volumes sobre a luz. (…) O seu significado e a sua missão não é apenas reflectir a construção e absorver uma função, se a função é a da utilidade pura e simples, a do conforto e a elegância prática. A arquitectura é arte em seu sentido mais elevado, é ordem matemática, é teoria pura, harmonia completa graças à exacta proporção de todas as relações: esta é a “função” da arquitectura.”
Le Corbusier (Vers une Architecture, 1923)
Exemplos para compreender como a ideia arquitectónica está dentro do tetraedro:

1. Beleza

Joalharia Schullin, Viena, 1978
Hollein, Hans

2. Função

Bauhaus, Dessau, 1926
Gropius, Walter

3. Estrutura

Restaurante los Manantiales
Candela, Felix

4. Lugar

Casa Malaparte, Capri 1940
Libera, A.

AULA04. Estratégias frente à ideia


Sobre este tema, foram escolhidas quatro obras do grupo de arquitectos Herzog & de Meuron, onde cada edifício terá uma estratégia (ideia) concreta e onde nenhum terá a mesma ideia.


A arquitectura de Herzog & de Meuron é uma arquitectura com volumes simples, prismáticos; abstracta e também ornamental em termos da forma, e usam a textura como um componente material.

1. Beleza (Fábrica Ricola, Mulhouse (FR) 1993)

As grandes palas que crescem em relação ao edifício vão ter relação com o jardim e com o urbanismo ao redor do edifício, servindo ainda de protecção na descarga para a própria fábrica.




Existe um movimento estético (betão) onde a água das chuvas desce sobre o betão criando uma ligação ainda mais forte com lugar.
O factor tempo actua segundo a água que recai sobre a fachada do edifício, criando musgos, vegetação e um certo cheiro.

A ornamentação do edifício alem do movimento estético que é criado pela água das chuvas, verifica-se também através da repetição de um elemento natural numa das fachadas para criar uma textura (folha).
A decoração interior é feita com os mesmos materiais da caixa (policarbonato que “veste” o edifício), criando uma relação do interior com o exterior.
A luz do dia torna a caixa compacta e opaca, durante a noite a luz ilumina o interior e a caixa torna-se muito mais aberta, realçando ainda mais o exterior.
A ideia do edifício está à volta da ideia de beleza, e nos jogos com os efeitos da repetição da serigrafia. Apesar de a caixa ser simples e prismática, contém muitas mais ideias dentro de si.

Os outros elementos observados no edifício são, de acordo com a estrutura, a caixa e a forma, as palas e o abrigo para os acessos aos armazéns, de acordo com o lugar, a ornamentação repetida e o natural e de acordo com a função, a empresa de caramelos e a própria fabrica que era parecida com uma caixa de caramelos (analogia).

2. Estrutura (Adega Dominus, Califórnia (U.S.A.) 1995-98)

Este edifício é uma caixa ainda mais simples do que a interior (uma espécie de contentor) que está na mesma direcção que as vinhas, ou seja paralelamente às mesmas, cuja geometria das vinhas é a mesma do edifício. Onde a ornamentação nada tem a ver com a geometria. A geometria apenas liga o edifício com o lugar. Apenas existe um buraco no meio do edifício que faz a ligação com as vinhas por onde passa uma estrada de um lado ao outro da propriedade ortogonalmente às vinhas e ao edifício.

A particularidade deste edifício está na estrutura, pois a grande preocupação nas adegas é a necessidade de manter uma determinada temperatura constante de cerca de 10ºC, e para isso é que são construídas numa cave, este edifício não contém nenhuma, pois a sua estratégia construtiva seria o desafio de manter a temperatura sem ter que escavar nenhuma cave. A solução consistiu em usar paredes com caixas de metal com pedras (gaviões) de diferentes tamanhos para manter a temperatura ideal de acordo com o tamanho das pedras.

A ornamentação é criada também por uma ideia construtiva que cria um efeito ornamental no edifício de acordo com a dimensão das pedras. Existe também uma relação maior entre o interior/exterior, onde de acordo com os diferentes tamanhos das pedras, a iluminação é feita de acordo os espaços entre elas. Pode dizer-se que existe uma qualidade ornamental.
A funcionalidade do edifício verifica-se na planta é dividida em três sectores, uma sala de fermentação, uma sala de barricas e um armazém.
O lugar está relacionado com a estrutura do material e a função para que foi construído ali e não noutro sítio (vinha).

3. Função (Projecto Olivetti (The Bank), 1993)

Este projecto de Herzog & de Meuron não foi construído, sendo um projecto fictício. Mas ainda assim, apesar de não existir, é um bom exemplo de funcionalidade, tendo como ideia principal, a criação de uma nova ideia de banco como contentor de dinheiro, onde cada contentor teria uma função concreta, surgindo assim a ideia da função.
Teria o edifício pensado, três andares, onde todos comunicavam no meio do edifício como ponto de encontro da combinação de cada contentor, onde cada um seria diferente e como já foi dito, concretamente diferente. Todo o edifício é como que lingotes de ouro empilhados a 90º cada um. Como que se fosse, em questões ornamentais, um monte de lingotes de ouro que estariam a representar o banco.

4. Lugar (Posto ferroviário, Basileia (Suíça) 1989-94)

O edifício é um bloco fechado. Onde a ideia do projecto é a convivência com o lugar onde está situado atreves desse mesmo bloco cúbico, onde a sua escala não é perceptível devido às lâminas de cobre que revestem o edifício, mais parecendo uma escultura do que um edifício. O material (cobre) está também relacionado com o lugar onde está integrado (carris). A ornamentação do edifício (lâminas) cria uma relação interior/exterior.

É constituído por um bloco de cinco andares de betão, e por uma superfície de cobre que vai sendo aberta nalguns pontos para sua funcionalidade, onde por dentro é possível ver-se o exterior e não o contrário, que muda consoante a noite para o dia. De dia ostenta ser uma caixa fechada e não permite ver o interior, de noite a luz das janelas dão uma melhor noção de escala e as faixas de cobre abrem-se completamente deixando ver o seu interior.

O edifício consegue mostrar como a forma de uma caixa muito simples com uma ideia concreta num projecto, e o uso correcto dos materiais e lugar, os objectivos arquitectónicos são muito fortes e faz com que o edifício nos crie muitas emoções arquitectónicas, isto é, que não fiquemos indiferentes a este gigante de cobre.

AULA 05. Onde estão as ideias


“Interessa-me a arquitectura que evolui. O meu lema é que tudo é relativo e, por suposto, nada é absoluto. Por essa razão eu aposto na leveza”.
Toyo Ito
Tokio 1941

Nesta parte da matéria, ainda sobre as estratégias frente a ideia, analisámos várias citações e edifícios do arquitecto Toyo Ito, e pudemos ver onde estão as ideias nas obras do arquitecto. Ficámos a conhecer as suas qualidades arquitectónicas que são elas a leveza, a transparência e a fluidez que o artista faz deixar sobressair nas suas obras.

“Na natureza, nem todas as pedras são sólidas”.
Toyo Ito

“Há arquitectos que pensam no primeiro termo uma forma, e outros imaginam primeiramente um espaço. Eu sou dos últimos”.
Toyo Ito

Toyo Ito quer sobressair nas obras criadas, a ideia como estratégia, onde a arquitectura deve sentir-se bem antes de ser entendida, isto é, temos que sentir a arquitectura para relacioná-la como obra de arte. A ideia é sentir a arquitectura relacionando-a como obra de arte ainda antes de a entendermos.

Mediateca Sendai, 1994-2000
Ito, Toyo

Numa caixa transparente, ele tenta criar elementos fluidos, como estas colunas orgânicas que se erguem e sobem pelo edifício até ao topo.
O objectivo de Toyo Ito é a gravidade, ou melhor, quer transmitir a sensação de que a arquitectura seja um elemento leve sem gravidade.

Torre dos Ventos, Yokohama
Ito, T. 1986-1995

É um exemplo de transparência e materialidade no que toca à qualidade arquitectónica de Toyo Ito. Existe uma influência do que rodeia o edifício. O projecto é uma espécie de pele electrónica que esconde uma série de máquinas de ventilação.

Instalação Health Futures
Expo Hannover
Ito, T. 2000

A luz é um material que não ocupa espaço e alem disso podemos controlá-lo como material.

Café Pavilhão, Galeria Serpentine, Londres
Ito, T. 2002

Neste edifício existe a ideia de ligação interior/exterior, uma ideia de sustentabilidade.

Pavilhão Brugge
Ito, T. 2002

É criada a relação interior/exterior através da leveza das linhas hexagonais de aço.

Em geral, a ideia de Toyo Ito é a de passar o compacto para algo mais leve, onde o elemento artístico da arquitectura era o acto de criar emoções.

AULA 06. Ideia e processo


Ideia e processo

Sobre este tópico, começou por se afirmar e tentar perceber o que era a ideia, e seguidamente o processo, segundo isso, entendeu-se que a ideia era um seguimento, um começo, um início de um processo, assim, a ideia é o início do pensamento abstracto (é o inicio da prática arquitectónica) e pode ser usada como estratégia para desenvolver um projecto. A ideia não é nenhum elemento que está à volta do pensamento filosófico, mas sim o ponto de partida para o arquitecto.
Um bom edifício é aquele que é criado com base numa ideia e que no fim do processo ainda se mantém o conceito da ideia bem visível.

De acordo com a definição no dicionário de processo, a palavra significa um modo de fazer uma coisa; uma norma; um método; sistema; formação; acto de proceder ou andar; seguimento; decurso.
Assim, o processo é importante para relacionar o caminho da ideia. Uma acção de continuar uma série de coisas que não tem fim.
O importante não é o projecto final, a obra final, uma pintura final, o importante está no processo, no conceito que está por trás da obra, porque se o projecto final não tiver processo então não valerá nada. A ideia fica muito mais pura durante o processo do que na final (perde-se a essência).

Foi dado um exemplo do desenho e da condição do desenho, que era, em primeiro lugar, saber o que fazer e daí ter uma ideia que deverá presenciar-se no final do processo. Logo, o mau desenho não deixa perceber a ideia inicial. Mas, por sua vez, o bom desenho é facilmente perceptível a ideia original.

Seguidamente foram dados vários exemplos da ideia no processo nalgumas correntes artísticas e alguns trabalhos de artistas plásticos:

1. Cubismo

Exemplos de obras:

“Cabeça” Litografia (tempo linear)
P. Picasso, 1945
“Cabeça” (tempo fragmentado)
P. Picasso, 1945

No Cubismo são apanhados bocados de diferentes pontos de vista em diferentes momentos, existe um processo temporal na acção artística, onde se multiplicam vários pontos de vista que depois são sobrepostos apenas num quadro. É criada a 4ª dimensão (tempo) através da sucessão de diferentes pontos de vista. Logo, o que importa não é a representação real de apenas um ponto de vista (o projecto final não é importante).

2. Ready Made

“Roda de bicicleta”
Duchamp, M. 1913

Os objectos comuns do quotidiano estão a ser colocados à frente do espectador de forma artística através da combinação dos mesmos. Assim, o objecto representado perde a sua funcionalidade tornando-se num objecto artístico.
Qualquer coisa pode ser movida de uma articulação artística, para isso basta existir um processo necessário para modificar a maneira de apresentar.

3. Assemblage

Exemplos de obras:
“Hotel do Oceano”
Joseph, Cornell, 1960

É como se tratasse de uma colagem mas com objectos. Onde o artista pega em objectos que antes não tinham nada a ver uns com os outros e libertando-os das suas funções habituais, cria novas conexões entre eles e apresenta-os juntos e de forma artística.
Neste movimento o que importa não é o aglomerado de objectos que foi criado, mas sim a maneira que cada um está colocado no conjunto.

4. Yves Klein

Exemplos de obras:
“Antropométricas”
Klein, Y

A obra de arte não é um objecto posto numa sala, o importante é a introdução do factor tempo numa acção artística. Portanto se a acção artística está a decorrer naquele momento o que importa é o processo e não o resultado final.

“Salto no Vazio”
Klein, Y.

Esta obra é uma sobreposição de fotografias, que serve para criar uma tensão no momento. Pois, o momento em que é fotografado o salto é o mais importante (factor tempo).
A obra é uma mistura da fotografia transformada (projecto final) e da realização da fotografia (processo).



5. Happening

Exemplos de obras:
“Fenómenos”
Wolf Vostell 1965

O importante é o que está a acontecer naquele momento, estamos apenas a ver a imagem como uma parte do momento que passou. O publico intervém na acção artística, sendo assim o tempo torna-se em arte, porque quando acabar o que está a ser feito, termina a obra artística. O tempo como duração real do tempo já é arte. Logo, o mais importante não é a fotografia final (projecto final), mas sim aquilo que foi feito no momento (processo).

6. Performance

Exemplos de obras:
“Underneath the arches”
Gilbert & George 1976

As pessoas actuam na obra artística, sendo ainda participantes da acção (como esculturas vivas). Durante a acção artística, perde-se a ideia de que é preciso um objecto construído para haver obra artística.

7. Arte Audiovisual
Exemplos de obras:

“Manipulating a fluorescent tube”
Bruce Nauman

Existe um meio visual para mostrar a acção artística que está a decorrer no momento.

8. Arte Processual
Exemplos de obras:
“Explorando o chão”
Lara Almarcegui

Já não é importante o projecto final, porque simplesmente não existe. Existe a necessidade de fluir o tempo (processo é mais importante).
A obra artística é o processo de desmontar o chão e voltar a montar (processo temporal).


Para resumir, de acordo com as diferentes épocas, os diferentes movimentos e correntes artísticas e os diferentes artistas, o que mais importa nas suas obras não é o projecto final a que chegaram, mas sim o processo que tiveram para chegar ao resultado final.

AULA 07. O processo arquitectónico


Como vamos observar, o processo arquitectónico não tem fim, pode continuar. E está dividido em quatro fases, que são elas:

1. Processo de Ideação

Nesta fase do processo ainda estamos no mundo das ideias abstractas. Os esboços (mundo das ideias) ligam ao mundo virtual e são a conversão de uma ideia abstracta a expressões simbólicas que expressam vários conceitos.

2. Processo de Formalização

As ideias começar a ganhar formas através de vários métodos. Formas essas que traduzem a ideia arquitectónica. A partir daí passamos do mundo sem escalas nem medidas para o mundo real com escalas e medidas.

3. Processo de projecto

Existe uma representação arquitectónica. Desenhos rigorosos com medidas e relações e começa-se a pensar na forma que terá o edifício.

4. Processo de Materialização

Começam a actuar factores externos a ter em conta o arquitecto ou à ideia, são eles factores técnicos, económicos e temporais.
Nesta última fase do processo, é necessário que não se perca a ideia inicial, a ideia original.
O tempo, também um factor, não pára, por isso é necessário um método de controlo também para esse processo que não tem fim. (ideia, processo, ideia)

AULA 08. Louis I.Kahn e o processo


“Um bom edifício é aquele que através do “como” podemos definir o “porquê””.
Louis I. Kahn

1. Porquê?

Para Kahn, nesta fase do seu processo existe um mundo incomensurável e sem escalas (ideogramas). Neste mundo das ideias, Kahn levanta uma questão para ele próprio. Para que faço qualquer projecto? (saber que projecto fazer)

2. Quê?

Seguidamente a uma primeira fase, surgem formas arquitectónicas com um sentido arquitectónico tal como acontecia no processo de formalização, então Kahn interroga-se. O que fazer? (saber que forma deve ter a ideia do projecto)

3. Como?

Neste momento, já sabendo o que fazer é necessário saber como materializar. Então, primeiro é necessário desenhar o edifício e em seguida constrói-se.


Para Kahn, a fase “quê?” significa a parte formal (forma = quê?), e a fase do “como?” significa o projecto (projecto = “como?”).

O movimento relacionado com a vida dos sonhos será a prática da arquitectura. Relacionando assim o mundo do arkhe (vida real) com o mundo do thelos (mundo dos sonhos), isto é, fantasia/real.

A arquitectura começa por tudo aquilo que é incomensurável, submetendo-se mais tarde ao método dos meios mensuráveis. Assim, o edifício é construído para tentarmos compreender a ideia.



Exemplo:

Ainda sobre a metodologia de Kahn, exemplificou-se com a ideia de mosteiro.


1. Ideia: é uma instituição, um retiro, recolhimento. Faz-se a pergunta para quê?


2. Forma: Quê? A pergunta de que forma terá o mosteiro.


3. Projecto: Como? Exemplos disso são os diferentes tipos de mosteiros que existem, como o mosteiro de Tourette (Le Corbusier), mosteiro dos Jerónimos (em ordem nas imagens de cima para baixo).
A ideia geral é a mesma em todos os tópicos, podendo ser materializada de maneira diferente. Se a forma corresponde à ideia, uma mudança da materialização não significa que se perca a ideia inicial.

Assim, para resumir este processo, uma arquitectura para ter significado pode ficar-se apenas pelo processo arquitectónico, não precisa de se materializar. O tempo participa na forma arquitectónica como contraponto da ideia arquitectónica, como foi visível nos exemplos anteriores dos vários movimentos artísticos onde o que mais importava era o que estava a acontecer no momento do que propriamente o resultado final.
Existe primeiramente uma idealização (ideogramas sem escala, não mensuráveis), seguido de uma formalização (ideias com formas, mensuráveis), e ainda um processo de projecto (esquemas mais precisos), podendo haver uma materialização.
Os tópicos “porquê?” e “para quê?” são geradores de ideias arquitectónicas, resolvem os problemas e tentam dar resposta a problemas reais. O tópico “como?” é denominado pela fase do processo que poderá existir uma outra fase de materialização.

AULA 09. A ideia construída


Este capítulo será uma explicação de como passar das ideias para os objectos/desenhos/projecto.
Portanto, sendo assim, a forma será o veículo para passar do desenho para o projecto, a matéria-prima dos arquitectos, e ainda servirá para criticar, discutir e analisar a arquitectura.

Para Kahn, na metodologia (ideia – forma – projecto) a forma, divide-se em duas partes uma denominada de Shape que representa o objecto final, perceptível, a forma material e o que é visível, e a outra, denominada por Form que representa o que está por trás da ideia (essência formal da ideia), aquilo que é estrutural do conceito/conteúdo. Estas duas palavras de origem inglesa, representam a mesma palavra (forma), mas têm compreensões completamente diferentes.

Exemplo da colher dado na aula:
“A” colher – Form (como conceito geral, pois pode ser qualquer colher).
“Uma” colher – Shape (representa as características materiais da colher).

As colheres têm todas a mesma “Form” (essência) onde o conceito é o mesmo, apenas muda a “Shape” (materialização da colher).
Na Form conseguimos dar a forma de colher para dar a ideia geral. Na Shape implica um projecto específico para uma colher concreta. Isto é, qualquer colher vai dar resposta à ideia inicial, apenas muda a materialização.

Exemplo da casa, mais relacionado com a arquitectura para melhor entendermos a diferença de forma:
“A” casa – Form (uma série de espaços para se viver, pode ser qualquer casa, é um conceito geral).
“Uma casa” – Shape (poderá ser o desenho concreto para a ideia de casa, como uma interpretação do arquitecto para dar resposta a essa mesma ideia).

É mais importante o conceito de “a casa” do que “uma casa”, pois, responde sempre à ideia de “a casa”, denominada de essência de casa.

Rudin House, Leymen (França)
Herzog & de Meuron

Neste exemplo, os arquitectos tentam mostrar, com uma linguagem moderna, a essência da casa, tal como acontece com as crianças. As crianças conseguem compreender a essência que está por trás da forma. Nesse sentido, os arquitectos querem que a casa seja entendida como um objecto abstracto.


Se o “fogo” da casa seria a casa mais os moradores, então nesse caso, o “fogo” seria o objectivo final da casa, sendo o elemento formal da casa.

Na essência da casa (cabana primitiva), já está o conceito de “fogo”. Onde é necessário habitar a casa para compreender a essência do elemento arquitectónico.